
Mucuragem
A política sem maquiagem.
Pinga-fogo de notas curtas — 2 a 5 linhas — sobre as manobras não-republicanas da política local. Sem rodeio, sem preâmbulo.

O secretário que jurou que não disputaria nada em 2026 já tem cinco reuniões agendadas com cabos eleitorais até sexta. Jurar é fácil.

Aliança improvável fechada na surdina: o grupo que liderou a CPI virou principal cabo eleitoral do investigado. O cheiro está no ar.

Deputado estadual que vivia em Manaus apareceu três vezes em Parintins na última semana. Não foi pelo Boi.

Ex-presidente de autarquia descobriu, de repente, que ama o partido que combateu por uma década. O amor, dizem, é cego.

A liderança que pedia rachadura no governo virou, do dia para a noite, defensora da harmonia institucional. Mudou o vento ou mudou o cheque?

Quatro vereadores faltaram à mesma sessão. Coincidência? Os quatro almoçaram juntos no restaurante que ninguém deveria ver.

O presidente da comissão arquivou o requerimento sem leitura em plenário. A justificativa, ainda mais curta que o requerimento, ficou só na ata.

Aliado de primeira hora foi rebaixado para subchefia. Soube por terceiros. A lealdade, em política, tem prazo de validade encurtado.

Empresário que financiou três campanhas opostas no último pleito agora frequenta o gabinete do vencedor como se nada tivesse acontecido. E nada aconteceu mesmo.

A nomeação saiu no Diário sem aviso prévio à base. A base reagiu como quem soube por jornal — porque soube por jornal.

Quem prometeu independência absoluta entregou os nomes da segunda escalada para o palácio aprovar. Independência absoluta com revisão.

O parlamentar que ameaçou romper já marcou jantar com a liderança. Rompimento em três tempos: ameaça, jantar, foto.

Diretor de estatal exonerado na sexta voltou na segunda, em cargo equivalente, em outra estatal. Reciclagem de gabinete.

A nota oficial de desagravo saiu antes da ofensa ser proferida. Roteiro afinado demais para improviso.

O candidato que negou conversas com o partido B foi visto saindo da sede do partido B pela porta dos fundos. Sabe-se lá o que esquece-se na sede dos outros.

Três emendas idênticas, de três autores diferentes, na mesma semana. Não é coincidência: é distribuição de paternidade.

Vereador que se opôs publicamente à pavimentação retirou objeção depois que a rua dele entrou na lista. Asfalto resolve coerência.

O suplente que assumiu por dez dias deixou cinco indicações de cargo. Eficiência rara para mandato breve.

Reunião marcada para tratar de saneamento virou tratativa de redistribuição de espaço em coligação. Esgoto, no fim, era metáfora.

A pesquisa interna que ninguém viu já está sendo citada como argumento por três pré-candidatos. Sigilo seletivo.

Foto na obra inaugurada três vezes. Obra que, repare-se, ainda não foi inaugurada nem uma.

O bloco de oposição que se reuniu para definir candidatura única saiu da reunião com três candidatos. Unidade, em Manaus, ainda é projeto piloto.

A liminar pedida na sexta foi concedida no sábado pela manhã. Eficiência judicial às vezes tem hora marcada.

O parente do vereador apareceu na lista de comissionados sem cargo definido. Função: a definir. Salário: pago.

Operador que se dizia aposentado da política voltou — só para coordenar uma única campanha, jura. Aposentadoria em política é como contrato de aluguel: sempre renovável.

Indicação para conselho fiscal saiu sem nome. O nome foi acrescentado três dias depois, fora do prazo. Ninguém reclamou.

A votação simbólica passou por aclamação. Aclamação que, na gravação, vem de quatro vozes — em plenário de vinte e oito.

O empresário do ramo de alimentação ganhou o contrato de merenda escolar. O ramo, antes da semana passada, era papelaria.

Discurso de despedida do cargo durou 14 minutos. A nomeação para o cargo seguinte saiu nos 15.

Reunião de base começou às 15h, terminou às 15h12. Pauta: aprovar o que já estava aprovado. Quórum: o suficiente para a ata.
